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Peixes que guardem os alevins da boca


· O "Brachygoblus"
· Gasterosteus aculeatus


Peixes que incubam os ovos e guardam os alevins na boca


Alguns Ciclídeos a maioria dos Tilapia, todos os Haplochromis que conhecemos, pelo menos um Pelmatochromis e alguns membros de outros géneros menos conhecidos cuidam de forma inédita dos ovos e dos alevins, a saber, um dos membros do casal apanha os ovos na boca e incuba-os ali. Nalguns casos os dois membros do casal colaboram nessa tarefa. Os alevins emergem depois de terem absorvido o saco vitelino e quando estão prontos para começar a nadar.
Este procedimento não é exclusivo dos Ciclídeos. Encontramo-lo em peixes de tipos muito diferentes, tais como em alguns Bettas, nos Corydoras marinhos e nos peixes Cardeais das costas atlânticas. Em todos estes tipos de peixes é o macho que incuba os ovos e os alevins. Os ovos do Corydoras são retidos na boca e nas guelras do macho durante um período de cerca de setenta dias, sem que a fome o leve a comê-los.
O pequeno Haplochromis multicolor é de todos estes peixes aquele que encontramos com mais frequência em aquário. O Tilapia macroce phala, um peixe grande, é utilizado em investigação laboratorial, mas o seu tamanho de 15 a 20 cm de comprimento faz com que seja geralmente rejeitado como peixe de aquário de interior. No Haplochromis multicolor é a fêmea e no Tilapia macrocephala o macho quem incuba os ovos na boca, enquanto o outro membro do casal se desinteressa completamente dos alevins.
Indicamos nesta alínea o processo de reprodução no Haplochromis rnultirnlnr as espécies mais interessante para o aquariofilista.
Os peixes desta espécie atingem o seu desenvolvimento completo aos oito meses de idade, medindo então de 5 a 7,5 cm. Os dois membros do casal têm de ser condicionados separadamente. Este aspecto é muito importante. A fêmea tem de ser alimentada com Tubifex, minhocas cortadas em pedaços, vermes brancos, etc., alimentos que lhe devem ser fornecidos nas maiores quantidades que ela esteja disposta a consumir. Quando os membros do casal estão em condições de se reproduzirem, as cores de ambos tornam-se mais fortes e intensas. O macho é particularmente bonito nessa altura, ficando quase preto. A fêmea é menos colorida. A diferença entre o macho e a fêmea reside principalmente nas cores nas barbatanas dorsal e anal. As barbatanas do macho, de colorido mais intenso, têm a ponta vermelha. A cabeça e os maxilares da fêmea parecem maiores do que os do macho.
Quando o macho e a fêmea são colocados no mesmo aquário, o primeiro escava no cascalho uma ou mais pequenas cavidades. Atrai a fêmea até uma dessas cavidades, recorrendo a uma combinação de tácticas muito invulgar, primeiro atrai-a exibindo o seu colorido resplandecente e depois empurra-a até ao local escolhido com pequenas dentadas.
Quando chegam ao local desejado, executam uma dança circular lenta, com a cabeça de um junto da cauda do outro. À medida que vão descrevendo esses círculos, a fêmea liberta alguns ovos, que o macho fertiliza, e a fêmea vai-os apanhando em seguida. Quando considera que já tem bastantes ovos, a fêmea foge e esconde-se entre as plantas, esperando a sua eclosão. Pode contentar-se com quantidades de ovos muito variáveis, compreendidas entre os 24 e os 200. Caso o aquário contenha mais do que um casal desta espécie, o macho permanece de guarda ao ninho, tentando persuadir a próxima fêmea que por ali passe a acasalar-se com ele. Para além do breve contacto do acasalamento, não parece formar-se qualquer relação duradoura entre os membros do casal, como acontece com a maioria dos Ciclídeos de aquário. Os ovos e os alevins permanecem dentro da boca da mãe durante um período de catorze a dezoito dias. Entretanto a fêmea não come, executando porém um movimento contínuo e pouco acentuado de mastigação, com a finalidade provável de movimentar a água entre os ovos e os alevins. Durante este período a fêmea deve ser alojada sozinha num aquário. Se bem que raramente cuspa ou engula os ovos, mesmo quando é apanhada na rede, fica muito fraca para poder fugir a qualquer perseguidor eventual. O macho deve ser retirado do aquário. Não parece compreender que a fêmea traz já a sua dose de ovos e continua a importuná-la. Assim se compreende porque é que a fêmea deve ser super alimentada durante o período do condicionamento, se não estiver em muito boa forma física, não pode sobreviver a esse período de catorze a dezoito dias de jejum total.
Os alevins que saem da boca da mãe têm o tamanho dos Guppys recém-nascidos e podem comer "camarões de salina" recém-saídos do ovo, dáfnias coadas pela peneira mais fina, etc. A fêmea não deve voltar para junto do macho antes de ter recuperado as forças. Depois de os alevins começarem a nadar, a mãe ignora-os geralmente. Será no entanto aconselhável tomar a precaução de a separar deles. Ao contrário do que se pensa geralmente, sou de opinião que estes peixes não devem ser incluídos em aquários comunitários. São glutões e agressivos. Mesmo quando são mantidos na companhia exclusiva de membros da sua espécie, as complicações são constantes. Os machos perseguem incessantemente as fêmeas, que acabam por morrer de esgotamento. Raramente estragam as plantas, a não ser nas proximidades da escavação praticada para o acasalamento. Os aquários destinados ao alojamento de um certo número de peixes desta espécie devem ser exuberantemente plantados e os peixes têm de ser alimentados com frequência. Podem reproduzir-se em aquários de 25 litros, a uma temperatura compreendida entre os 23,5 e os 26 °C. O pH da água não parece afectar a reprodução.
Uma diferença notória entre os processos de reprodução do Haplochromis multicolor e do Tilapia macrocepha , um peixe africano, reside no facto de os alevins do primeiro continuarem a procurar refúgio na boca da mãe durante os primeiros dias que se seguem ao seu aparecimento. O Tilapia macho, pelo contrário, depois de ter libertado os alevins, passa a ignorá-los completamente, deixando-os desembaraçarem-se por si.
Vários outros peixes que não pertencem à família dos Ciclídeos cuidam também dos alevins de forma muito interessante, por exemplo, o Badis badis. O aquário de 25 litros ou mais para a reprodução deste interessante Nandídeo deve ser abundantemente plantado. Deve colocar-se no interior do aquário um vaso de barro de 7,5 a 10 cm de diâmetro, deitado, ou um certo número de pedras dispostas de maneira a formarem uma gruta. Depois de um condicionamento adequado, o macho escurece muito quando vê a fêmea. A medida que a desova se aproxima, fica quase preto. O casal entra na gruta e abraça-se, depois do que a fêmea põe uma fiada de ovos, que são fertilizados pelo macho. A postura pode ser de 100 ovos. Depois da desova o macho expulsa a fêmea e guarda os ovos sozinho. Deve portanto tirar-se a fêmea do aquário de criação.
A uma temperatura de 26 °C, a eclosão dos ovos verifica-se ao fim de dois dias. Aos cinco ou seis dias de idade, os alevins começam a comer infusórios grandes e micro vermes e depois camarões recém-nascidos. Nessa altura convém tirar também o macho do aquário. O Badis não parece apreciar a luz. Come comida viva, e só com grande relutância aceita outros alimentos frescos ou secos. A identificação dos sexos é fácil nos exemplares adultos. O estômago da fêmea é convexo, o do macho é côncavo - o que pode levar o criador inexperiente a pensar que se trata de uma doença.



O Brachygoblus


Este belo peixe reproduz-se de forma semelhante ao Badis badis. Prefere um vaso invertido com um orifício de drenagem alargado, que permite uma entrada fácil. É o macho que cuida sozinho dos ovos e dos alevins. Prefere uma temperatura de 26 °C e um pH próximo do neutro. O aquário de reprodução deve ter uma altura de água de 10 a 15 cm. Tal como o Badis, estes peixes podem ser condicionados com facilidade à base de alimentos vivos. A fêmea deve ser retirada do aquário depois da desova. Após terem absorvido o saco vitelino, os alevins devem ser alimentados durante vários dias com infusórios pequenos ou com um substituto adequado. Se bem que seja acusado por vezes de roer as barbatanas de outros peixes, nunca o vi fazer isso. Mas já tenho visto os Brachygobius comerem outros peixes suficientemente pequenos para lhes caberem dentro da boca, que é de resto muito grande, proporcionalmente ao tamanho do corpo. Abrem toda a parte da frente da cabeça e podem engolir Guppys com metade do tamanho que atingem em adultos e Néons com três quartos do seu tamanho adulto. Tal como todos os peixes do mesmo género são semi-nocturnos e fazem as suas depredações ao abrigo da escuridão.
De uma maneira geral, os Caracídeos prestam pouca atenção aos ovos e aos alevins, a não ser para os comerem. O Pyrrhulina rachovianá e o Copeiriacalolepis desovam plantas aquáticas de folhas largas, a uma temperatura de 23,5 °C. O Cópeina guttata afasta a areia com as barbatanas até escavar no fundo do aquário uma depressão bastante grande, onde os ovos são depositados. Nestas três espécies são os machos que cuidam sozinhos dos ovos, bem como dos alevins, durante um curto espaço de tempo.



Gasterosteus aculeatus


O Gasterosteus aculeatus é um peixe de aquário muito vulgar em Inglaterra e noutros países da Europa, onde é criado em grandes quantidades. O seu comportamento, muito complicado e ritualizado, tem sido objecto de muitos estudos feitos em laboratório. Conhecemos portanto muito melhor os estímulos que desencadeiam as reacções do Gasterosteus do que os que actuam sobre outros peixes de aquário. Várias espécies de água salgada aparentadas com o Gasterosteus vivem na costa atlântica dos EUA. Essas espécies emigram na Primavera para os rios, mas precisam de regressar rapidamente à água salgada, pelo que não podem viver muito tempo em aquário. Uma destas espécies, o Apeltes quadracus, cujo comportamento é menos conhecido do que o do Gasterosteus aculeatus, desova em aquário se os reprodutores forem capturados quando sobem os rios, na sua migração periódica do princípio da Primavera.
O ninho destes peixes parece mais de pássaro do que de peixe. Consiste em pedacinhos de plantas colados uns aos outros com uma secreção renal e fixo às plantas, debaixo de água, como um ninho de pintarroxo aos ramos de uma árvore. O ninho tem geralmente duas aberturas. Depois de ter introduzido no ninho uma ou mais fêmeas, que entram por uma das aberturas e saem pela outra, depositando ali os ovos, que o macho fertiliza imediatamente, este posta-se de guarda à entrada do ninho, criando com as barbatanas uma corrente de água que passa por sobre os ovos. Ataca ferozmente todos os intrusos, inclusive a fêmea com a qual acabou de se acasalar. Os alevins devem ser alimentados com infusórios miúdos. Como estes peixes não são oriundos das regiões tropicais, a temperatura da água não deve ser superior aos 21 ºC.
O Gasterosteus aculeatus, que tem sido objecto de uma investigação mais aturada, é oriundo das águas costeiras da Europa e dos EUA. Quando se juntam vários machos num aquário, cada um deles escolhe imediatamente o seu canto, que considera como um território exclusivo, onde construirá o ninho.
Se bem que os machos sejam aparentemente muito ameaçadores, quase nunca participam em lutas e, quando isso acontece, raramente são perigosos para os adversários. A sua bravura é directamente proporcional à proximidade a que se encontram do ninho. Se um macho desta espécie penetra inadvertidamente no território de um rival, este precipita-se em direcção ao intruso, de espinhos erectos e ostentando as suas cores mais brilhantes, e o invasor foge imediatamente em direcção ao seu território. Uma vez atingido esse território, a situação inverte-se. O perseguido torna-se agora em perseguidor, expulsando o outro peixe em direcção ao território deste e assim por diante, até chegarem a acordo quanto às fronteiras dos respectivos territórios. Nessa altura ficam ambos no lado respectivo, ameaçando-se valorosamente.
A construção do ninho pode levar de uma a cinco horas, culminando no momento atrás referido, ou seja, na entrada e saída da fêmea pelas aberturas opostas do ninho. A postura dos ovos é feita pelo processo que descrevemos já em relação ao Apeltes quadracus. A fêmea insinua-se pela abertura do ninho, seguida pelo macho. Depois da desova a fêmea deve ser afastada. Se o aquário contém várias fêmeas, o macho consegue por vezes que todas elas vão desovar no seu ninho. O macho cuida sozinho dos ovos e dos alevins. Estes são muito pequenos e podem ser alimentados de início com infusórios e mais tarde com micro vermes e camarões de salina (Ver Alimentação).